sábado, 14 de março de 2026

Sobre temperamento

"Nenhuma estetica equivocada constrange mais do que a vulgaridade da amargura"

Uma frase cirúrgica.

Enquanto o erro estético pode ser visto como uma falha de julgamento ou um excesso de estilo, por outro lado, a amargura é uma estética da alma, que transborda e diz mais sobre você do que o outro.

Ela é vulgar, previsível e ruidosa. É o ressentimento tentando se passar por profundidade e realismo. Como diria Nelson Rodrigues, a elegância é, antes de tudo, uma questão de temperamento.

Talvez, não julgar de antemão aquilo que não faz mal a ninguém verdadeiramente, seja a mais profunda paz de espírito que alguém possa alcançar. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Sobre deixar ir


Seria correto rotular como amorosa uma relação que inevitavelmente mergulha quem gostamos numa sucessão de sofrimentos evitáveis?

Somos tão especiais para estar com alguém que isso justifica o sofrimento que nossa presença acarreta? Será que nosso suposto amor não tem, no fim das contas, mais a ver com a nossa satisfação do que com a realização dos outros? 

É claro que existem mentirosos que disfarçam suas fugas como atos de generosidade, mas também existem amantes verdadeiros que se sacrificam silenciosamente em altares desconhecidos de resignação.

É extremamente honroso e comovente fazer o máximo para estar com alguém. Mas talvez seja um amor ainda maior adorar uma pessoa e, antes de desperdiçar mais o tempo dela, deixá-la ir, sozinha.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Perfeita Alegria

Cai a tarde de inverno impiedoso,
Francisco e Leão sob a neve caminham,
Vão tornando à Santa Maria com fome e com frio ao final de outro dia.
Frei Leão vai na frente ligeiro,
Frei Francisco o chama e lhe diz:
Frei leão toma nota se queres
saber o que é a perfeita alegria.

Se nós tivermos a graça de Deus, 
de pregar o Evangelho e a cruz, 
e por obras e exemplos pudermos
levar a Jesus, e convertermos
os homens à fé, até
mesmo os de mal coração,
Frei Leão isto ainda não é a
perfeita alegria.

Imagine, Leão, que Deus nos tenha
dado a graça de a todos curar.
De fazer ver a cegos, a coxos
andar, surdos ouvir e mudos falar.
E que até os demônios fugissem ao
comando de nosso olhar.
E que os mortos nós
ressuscitássemos, isto ainda não é a
perfeita alegria.

E se falássemos todas as línguas,
com o dom de bem comunicar,
Transformando os reinos da Terra
em reinos de paz.
E se soubéssemos toda a ciência, e
os segredos da terra e do mar,
Frei Leão isto ainda não é a
perfeita alegria.

Mas então, Pai Francisco, o que é
a perfeita alegria?

Se ao chegarmos ao nosso convento,
e batermos depressa esperando entrar,
e o porteiro do lado de dentro ao
invés de abrir põe-se assim a falar:
Quem sois vós que assim importunos,
nesta hora nos incomodais?
Somos nós, teus irmãos, Frei Leão
e Francisco que chegam e querem entrar.

E, Frei Leão, se o porteiro disser
que é mentira e que não abrirá.
Que encontremos um outro lugar em
um canto qualquer.
E se nós diante da porta fechada,
sob a noite e a neve que cai,
Conservarmos a paz, isto é a
perfeita alegria.

Mas se nós insistirmos em pranto,
que abra, que tenha piedade de nós,
pois com fome e tão necessitados,
na noite não temos consolo e lugar.
E se então o porteiro sair,
empunhando o bastão a gritar, 
e bater em você e em mim,
nos deixando no chão a chorar. 

E, Frei Leão, se for Deus que tal faz, 
que nos deixa na noite e na cruz, 
se entendermos que este abandono
imita Jesus.
E se nós diante da porta fechada,
sob a noite e a neve que cai,
conservarmos a paz, Frei Leão,
isto é a perfeita alegria.