sexta-feira, 3 de julho de 2026

A condição humana segundo Pascal

Uma constante na história da filosofia é o elogio do poder de conhecer que tem o homem. Tal poder identificou-se no mais das vezes a uma das faculdades humanas, a Razão. Seria contudo falsear esta história omitir o aspecto auto-crítico da Razão, ou seja, a capacidade de a filosofia criticar racionalmente a Razão, apontando os limites do conhecimento humano. Tal tarefa foi explorada de modo particular por Blaise Pascal (1623-1662), e é através dela que podemos compreender o papel fundamental da Religião no pensamento deste filósofo.


Lê-se nos manuais que Pascal trata da condição miserável do homem, dilacerado entre o nada de onde saiu e o infinito que o envolve, incapaz de compreender seu princípio bem como seu fim. Vejamos o que isto significa: antes de tudo (e é aí que se situa a crítica ao poder da razão), que a única compreensão real ao alcance do homem pascaliano é a de ser superado por infinitos que ele não pode fixar, mas que sente serem irremediavelmente necessários para a compreensão do mundo e de si mesmo. Afinal, o homem é uma parte do todo, a qual tem infinitas relações com as outras, de modo que a compreensão da parte implica conhecer o todo em que se insere. Na dura visão de Pascal, o homem é profundamente infeliz pois só um bem infinito, e portanto inabarcável, poderia satisfazer seus anseios. De um lado, se a imaginação disfarça esta necessidade de infinitude, o homem perde-se inutilmente nos bens materiais, sofrendo contínuas decepções. De outro, se compreende esta necessidade (através da humilhação que sente ao ser superado), percebe sua incapacidade de sequer imaginar o infinito. “Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além dos espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas. Esta é uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma.” (As citações do texto são do fragmento 72 dos Pensamentos, Abril Cultural).


No extremo oposto, o menor dos objetos (uma lêndea, por exemplo) contém dentro de si infinitos mundos, e dentro deles infinitos seres que vão muito além do que o homem pode imaginar. Logo, os elementos que compõem o universo são tão inabarcáveis quanto o todo dele, ou seja, até o mais desprezível inseto é capaz de derrubar a pretensão humana de conhecer os infinitos, seja o infinitamente grande ou o infinitamente pequeno. Na verdade, a posição natural do homem é de flutuar no meio deles sem entendê-los, de modo que o que extrapola a mediocridade não está em proporção com sua capacidade: quando avança rumo ao todo, sua insignificância o arrasta de volta; quando tenta agarrar o nada, seu pouco ser torna-se gigantesco, fazendo da menor distância um infinito insuperável.


O homem está destinado ao meio, mas não pode perder de vista os dois extremos. Diante deles, tudo é ínfimo, desnecessário, passageiro. A morte é o que o espera pois, comparados à eternidade, oitenta anos ou oitocentos são o mesmo que nada. Tudo que tem uma duração, um limite, do nosso ponto de vista finito é símbolo da morte, e do ponto de vista infinito (a eternidade de Deus) como que já morreu.


Então qual é a saída? Cabe à Razão, cuja força pintou este quadro trágico da existência humana, perceber que deve submeter-se à Religião. Não se trata de renunciar à Razão, mas de perceber racionalmente que as razões da Religião são as únicas capazes de explicar nossa condição e dar-lhe alguma esperança. A miséria não tem sentido se não a virmos como efeito do pecado original. E estaríamos necessariamente enredados nela não fosse a salvação em Jesus Cristo. É fato, diz Pascal, que estes mistérios são incompreensíveis, mas nossa condição é mais incompreensível sem eles do que eles são em si mesmos. Por isso a Razão deve aceitá-los.


Não há espaço para apresentar todo o exame que Pascal faz da Religião Cristã, mas isto não deve levar o leitor a crer que haja um abandono da racionalidade, o que seria abandonar a filosofia. Ao contrário, é a força da Razão que se manifesta ao explorar seus próprios limites.

Texto de Luís César Oliva
Mestre e doutor pelo departamento de filosofia da USP, assina mensalmente a seção “Filosofia CULT”.

Espero que esse texto nunca se perca.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Um sonho sobre a solidão

Um sentimento estranho é estar rodeado de pessoas e se sentir sozinho. Senti isso em um sonho hoje a tarde. Durante uma chuva que caia aos pingos contados, andando nas ruas próximas à minha casa eu caminhei sob um sentimento de vazio que não soube explicar depois de acordar.

Nunca senti isso na vida. Era uma solidão muito além de estar sozinho. Era como se todos os meus amigos estivessem mortos. Como se na rua não houvesse ninguém com quem eu pudesse parar e sentar de forma presente. Não havia alguém para falar e ouvir de verdade. Todos pareciam ocupados demais.

Acordei tranquilamente, e observei a vida em perspectiva, como se ela tivesse passado inteiramente diante de mim. Mas os livros que eu não escrevi, as música que não compus, e o abraço que não dei, estivam aqui do meu lado, cobrando o preço de performar na vida sem parar para a viver de verdade.

Sinto que só represento um papel. Que coisa triste é carregar uma máscara para os outros veem. Talvez a escrita seja o melhor refúgio para dias assim.

Hoje foi um dia cheio, caminhei por lugares novos, encontrei novas pessoas, subi 1800 degraus de uma trilha em uma cidade vizinha. E sob a névoa da manhã, conheci os arredores dessa cidade próxima. Almocei em um lugar que nunca fui. Banhei com pessoas que nunca mais vou ver em um balneário na volta. Até a sobremesa foi em um lugar que nunca entrei. Tantas coisas novas para um dia, e ao cair da noite, sonhei pela tarde com final dos meus dias. Esse sonho me deixou muito pensativo. Foi uma espécie de pesadelo sem nenhum desdespero. Um sentimento que só consigo traduzir como a sensação de existir no mundo sem que ninguém o conheça. Como se você tivesse 200 anos e todas as pessoas que você já viu na vida estivessem mortas. 

Não reclamo. Esse senho me presta o serviço de vir à frente desta tela ruminar meus mais íntimos pensamentos. 

sábado, 14 de março de 2026

Sobre temperamento

"Nenhuma estetica equivocada constrange mais do que a vulgaridade da amargura"

Uma frase cirúrgica.

Enquanto o erro estético pode ser visto como uma falha de julgamento ou um excesso de estilo, por outro lado, a amargura é uma estética da alma, que transborda e diz mais sobre você do que o outro.

Ela é vulgar, previsível e ruidosa. É o ressentimento tentando se passar por profundidade e realismo. Como diria Nelson Rodrigues, a elegância é, antes de tudo, uma questão de temperamento.

Talvez, não julgar de antemão aquilo que não faz mal a ninguém verdadeiramente, seja a mais profunda paz de espírito que alguém possa alcançar. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Sobre deixar ir


Seria correto rotular como amorosa uma relação que inevitavelmente mergulha quem gostamos numa sucessão de sofrimentos evitáveis?

Somos tão especiais para estar com alguém que isso justifica o sofrimento que nossa presença acarreta? Será que nosso suposto amor não tem, no fim das contas, mais a ver com a nossa satisfação do que com a realização dos outros? 

É claro que existem mentirosos que disfarçam suas fugas como atos de generosidade, mas também existem amantes verdadeiros que se sacrificam silenciosamente em altares desconhecidos de resignação.

É extremamente honroso e comovente fazer o máximo para estar com alguém. Mas talvez seja um amor ainda maior adorar uma pessoa e ter a coragem de deixá-la sozinha.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Perfeita Alegria

Cai a tarde de inverno impiedoso,
Francisco e Leão sob a neve caminham,
Vão tornando à Santa Maria com fome e com frio ao final de outro dia.
Frei Leão vai na frente ligeiro,
Frei Francisco o chama e lhe diz:
Frei leão toma nota se queres
saber o que é a perfeita alegria.

Se nós tivermos a graça de Deus, 
de pregar o Evangelho e a cruz, 
e por obras e exemplos pudermos
levar a Jesus, e convertermos
os homens à fé, até
mesmo os de mal coração,
Frei Leão isto ainda não é a
perfeita alegria.

Imagine, Leão, que Deus nos tenha
dado a graça de a todos curar.
De fazer ver a cegos, a coxos
andar, surdos ouvir e mudos falar.
E que até os demônios fugissem ao
comando de nosso olhar.
E que os mortos nós
ressuscitássemos, isto ainda não é a
perfeita alegria.

E se falássemos todas as línguas,
com o dom de bem comunicar,
Transformando os reinos da Terra
em reinos de paz.
E se soubéssemos toda a ciência, e
os segredos da terra e do mar,
Frei Leão isto ainda não é a
perfeita alegria.

Mas então, Pai Francisco, o que é
a perfeita alegria?

Se ao chegarmos ao nosso convento,
e batermos depressa esperando entrar,
e o porteiro do lado de dentro ao
invés de abrir põe-se assim a falar:
Quem sois vós que assim importunos,
nesta hora nos incomodais?
Somos nós, teus irmãos, Frei Leão
e Francisco que chegam e querem entrar.

E, Frei Leão, se o porteiro disser
que é mentira e que não abrirá.
Que encontremos um outro lugar em
um canto qualquer.
E se nós diante da porta fechada,
sob a noite e a neve que cai,
Conservarmos a paz, isto é a
perfeita alegria.

Mas se nós insistirmos em pranto,
que abra, que tenha piedade de nós,
pois com fome e tão necessitados,
na noite não temos consolo e lugar.
E se então o porteiro sair,
empunhando o bastão a gritar, 
e bater em você e em mim,
nos deixando no chão a chorar. 

E, Frei Leão, se for Deus que tal faz, 
que nos deixa na noite e na cruz, 
se entendermos que este abandono
imita Jesus.
E se nós diante da porta fechada,
sob a noite e a neve que cai,
conservarmos a paz, Frei Leão,
isto é a perfeita alegria.