domingo, 22 de dezembro de 2024

Sobre os sonhos e o subconsciente

Escrevo na segunda, mas esse sonho perdura em minha mente e me induz uma profunda reflexão. 

O sonho foi pesado, muito mais como um pesadelo. Nele, um lugar horrível parecia ser a materialização do lado mais obscuro da minha mente. O local parecia uma mistura de banheiro e prisão, com chão e paredes de cerâmicas brancas, barras de ferro na entrada, chão sujo, com manchas vermelhas e marrons até nas paredes. As manchas eram resíduos de sangue e fezes.

Desse lugar emanava muito mais do que mal cheiro, existia uma aura que parecia indicar que ali algumas pessoas foram mortas e torturadas, que morreram com rancor, ódio e ressentimento. Algo como um manicômio ou laboratório de experiência em humanos.

Escrevo esse relato antes de dormir, 3:22 da segunda-feira, e acabo de me arrepiar por inteiro olhando o espelho.

Continuando. O local induzia uma estranha sensação de que era preciso limpá-lo, lembro que eu e outras duas pessoas, não lembro quem, chegávamos lá com essa missão em mente. Isso precisava ser feito, não apenas para higienizar o ambiente, mas como um ritual para permitir que toda a energia negativa que emanava de lá se dissipasse. Uma necessidade parecida com a que temos de enterrar os mortos ou queimar seus restos para que suas almas tenham alguma paz. Era essa a principal intenção da "limpeza".

Contudo, todos que começavam a limpar o local viam uma projeção de uma pessoa,  essa pessoa era alguém que você desejava muito, por exemplo, uma esposa que você amou, um filho que faleceu, algo assim. O problema é que essa projeção não permanecia no local, ela sempre se afastava, caminhando rapidamente para longe. Como todos querem uma segunda chance, facilmente se distraiam e deixavam de limpar o local, seguindo a projeção, que claramente existia apenas para esse objetivo.

Era possível conversar com a projeção, sua voz era calma e doce, induzindo um sentimento suave como rever um amigo querido. Mas claramente aquilo era falso, seu único objetivo era a distração, desconectar você de si mesmo.

É muito estranho, lembro de sentir o que aconteceria se eu permanecesse caminhando com a projeção por muito tempo. Senti que entraria num loop infinito até a exaustão. Esse sentimento era como a materialização do vício. Quem quer que a seguisse permaneceria nesse loop dando voltas em torno do nada até se exaurir, como se estivesse sendo atormentado por um prazer muito grande.

Eu lembro de gritar para alguém que aquilo não era real, que parasse de seguir a projeção, mas não sei para quem gritava, no fundo, acho que gritava para mim mesmo.

Sei que sou um viciado em pornografia. Isso me causou uma perca que ainda ressoa em mim como culpa. Esse sonho foi como encarar isso, aquele ambiente asqueiroso, sujo e carregado de dor, era na verdade o meu vício, e a projeção, o prazer associado a ele querendo me distrair. Eu tento limpar isso da minha mente todos os dias, começo a perceber que essa será a luta é a mais difícil de minha vida. São 15 anos de vício...

Nunca imaginei que os sonhos fossem tão precisos em descrever o nosso subconsciente, estou fascinado e espantado com a verossimelhança desse sonho. Eu pensei nele por um tempo quando acordei. Mesmo após dormir e sonhar novamente no dia seguinte, (um sonho significativo) permaneceu a memória do dia anterior. Talvez isso me ajude de alguma forma. Acredito que posso aprender com aquele sonho.

sábado, 5 de outubro de 2024

Sobre se Amar

O preço que eu pago pelas decisões que tomei ou deixei de tomar em razão de minhas inseguranças, sendo as principais delas o medo da rejeição e o julgamento dos outros, é a desconexão de si mesmo. 

Me olho no espelho e não reconheço quem age por detrás de minhas próprias ações.

O vazio existencial se instalou, mas ele dará origem a algo maior. Eu superarei quem sou. 


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Soneto da Vaidade

Cada um tem a sua vaidade,

E a vaidade de cada um,

É o esquecimento de que há,

Sempre outros com alma igual. 


A minha vaidade são certas dúvidas,

Sobre a realidade do universo,

Com existencial dor e angústia,

De ser igual entre os diversos. 


Para quem não tivesse vaidade,

Pouco importaria, de verdade,

Que todos os outros a tivessem.


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Sobre a autoreferência - Existir é uma contradição

É possível definir o que é verdade? Na aritmética com certeza: 1 + 1 = 2. Mas existe um Teorema, chamado 'Tarski's undefinability theorem", que diz o seguinte:

"arithmetical truth cannot be defined in arithmetic"

Ora, se não pode ser definido lá, de onde vem? Do universo, você responde, pois nele estão as leis da lógica na forma de processos naturais. Mas é a matemática que segue as leis do universo, ou o universo que segue as leis da matemática?

Quem acredita que a matemática é uma descoberta, compactua com a primeira afirmação. Os que acreditam que ela é uma linguagem, como eu, preferem a segunda.

"No sufficiently rich interpreted language can represent its own semantics"

A matemática não consegue explicar sua própria existência. Essa afirmação faz parte do teorema citado anteriormente. Ele abre a porta para os paradoxos entrarem na aritmética.

Um paradoxo muito interessante é o conceito de números indefinidos. Como diversos outros teoremas da lógica, ele foi provado por contradição. Da prova surge um tipo especial de número, algo que faz a divisão por zero parecer normal.

"undefined numbers"

Sim, números indefinidos, não confundir com as indeterminações do cálculo diferencial. Os números indefinidos surgem apenas das afirmações que geram contradição na lógica de primeira ordem.

Eles são como a materialização dos paradoxos, é possível falar sobre eles, mas ao falar, se gera uma contradição. Para que a contradição deixe de existir e a matemática volte a ser consistente, é necessário expandir a matemática para uma metamatemática.

Quando você tenta definir algo, precisa utilizar uma linguagem para isso. Logo, já podemos dizer que a condição necessária para definir algo é que primeiro exista uma linguagem. A linguagem é algo que permite falar do que está sendo definido. Quando você tenta falar das propriedades da línguagem utilizada para fazer tais definições, uma nova forma de linguagem é criada, a metalinguagem.

A metalinguagem tem de ser mais ampla do que a linguagem para fazer afirmações sobre ela. A metalinguagem da matemática é a lógica. O problema é que toda a lógica é pura matemática, existe um homeomorfismo que permite estabelecer uma relação um-para-um entre ambas, a consequência disso, é que a matemática não consegue sair de si mesma.

O mesmo ocorre com qualquer outra linguagem, até com a gente. Nós também não conseguimos sair de si mesmos, por isso, toda e qualquer definição que fazemos de nós é passível de contradição.

Sempre que uma linguagem fala se si própria, pode gerar paradoxos (ver Teoremas da Incompletude de Godel).

"Essa frase é falsa"

(Se a frase é verdadeira, então ela é falsa.)
(Se frase é falsa, então ela é verdadeira.)

Agora, vamos definir um número contraditório - um número paradoxal - utilizando a linguagem natural. Apreciem o Paradoxo de Berry (traduzido e adaptado numericamente ao português por mim mesmo).

Imagine o seguinte número: "O menor número inteiro positivo que não pode ser escrito com menos de oitenta letras"

Exemplo um: 11 (onze) é um número inteiro, mas é escrito com apenas 4 letras, logo, 11 não pode ser o número ao qual a sentença se refere.

Exemplo dois: 845.558.978 (oitocentos e quarenta e cinco milhões, quinhentos e cinquenta e oito mil, novecentos e setenta e oito) é um número inteiro e tem 83 letras. Poderia ser esse número? Sim, ele obedece as duas condições.

Primeira condição: ele é um número inteiro; 

Segunda condição: não pode ser escrito com menos de 80 letras (ele tem 83).

Mas será que ele é o menor dos inteiros que obedece essas duas condições? Provavelmente não.

Qual é esse número não interessa, você já percebeu que ele existe, basta procurar. O mais importante aqui, é perceber que ele é único, pois só existe um MENOR INTEIRO que não pode ser escrito com menos de 80 letras. Vamos chamar esse número de N. 

Agora leia novamente a definição de N: "O menor número inteiro positivo que não pode ser escrito com menos de oitenta letras". 
Vamos chamar essa definição de L (L⇒N).

Se você contar, a frase L acima tem apenas 70 letras.

Todavia, o número que L define "não pode ser escrito com menos de oitenta letras", mas veja que L, ela própria, é escrita com menos de 70 letras, e ela define um número! Um número único!

Portanto, L não pode ter menos de 80 letras, ela mesma afirma isso, mas tem.

O que L está dizendo é o seguinte: eu não posso ter menos de 80 letras, mas tenho. Nosso número é paradoxal porque L faz referência a si própria. L tenta (e consegue) definir um número utilizando a quantidade de letras do número, mas quando fazemos isso com L, utilizando a quantidade de letras dela, ela prórpria não obedece a si mesma.

Agora imagine a função Conta Letras (CL), por exemplo: CL(2) = 4, pois 'dois' tem 4 letras. Agora, vamos aplicar CL em L. CL(L) = 70. Pois L tem 70 letras. Mas L⇒N. Então CL(L) = CL(N). Só que CL(N) ≥ 80. É impossível que:

CL(L) = CL(N),
CL(L) = 70, e
CL(N) ≥ 80.

Sabe porque isso aconteceu? Porque nossa linguagem não é formal como a lógica. Todos sabemos que ela permite criar paradoxos por autoreferência.

Pois bem, Gödel provou que nem a matemática está livre dos paradoxos, pois tudo que é capaz de expressar recursividade, é passível de contradição.

Alguém pode dizer que isso seja uma limitação das palavras, mas aí é que tá, não é. Gödel fez isso na matemática, tentou definir ela por ela mesma. O resultado foi o Teorema mais fudido de todos: os Teoremas da Incompletude de Gödel. Especificamente, Gödel encontrou uma função que dizia: eu não posso ser provada, mas ela própria, era a prova de si mesma.

Esses Teoremas abalaram não apenas a matemática, mas toda a epistemologia do conhecimento. Eles estão para a matemática como a mecânica quântica está para a física.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Sobre as árvores

Para conversar com as árvores é preciso um cigarro. Só quando se está livre dos pensamentos é possível conversar com elas. Tudo desaparece, a biologia, os sentidos rápidos. Assim encaro as árvores como os seres mágicos que realmente são.


Tudo sabem esentem no seu perímetro, seres sábios, autosuficientes, profundamente conscientes da Terra e do Sol. Tão completas que nunca fazem filosofia. Ou se fazem, não sabemos. Basta-lhes que o sol exista para que possam existir. Em teu sagrado lugar, árvore, tu reina e es capaz de passar séculos ali! Séculos só existindo no mesmo lugar!

Possuem a forma dos fractais.

O quão lúcido Godel estava quando disse que são os seres mais inspiradores que existem. Se a reincanarção for verdade, que eu volte ao mundo como uma árvore. Quero saborear a Terra e o mundo em profundas raízes. Quero ter milhões de folhas para sentir o Sol em toda parte, centenas de galhos para me espalhar pelo espaço e raízes sinuosas que façam os chãos racharem. 


Mato insetos e não sinto absolutamente nada. Mas se uma raiz é arrancada do solo, me parece que rasgam o próprio mundo. Que pecado é arrancar uma árvore de seu sagrado lugar. 






















O verde ser vertendo o barro,
Entrelaçando Terra e água,
gera, do Sol e química árdua, 
os ingredientes do cigarro.

Tu que da Terra e Sol tudo conheces,
Completa em ti, sem nunca filosofar,
Por séculos no mesmo solo teces
A vida em fractais pelo ar.

Se a alma um dia regressar ao mundo,
Que em tuas raízes possa mergulhar,
Sentindo a seiva num prazer profundo.

Pois que te arranquem do sagrado chão
É ver rasgarem toda a criação,
Para criar ali o submundo

terça-feira, 11 de junho de 2024

Inspiração do mundo opaco

Filosofias, versos vaidosos, pensamentos que imagino só eu ter pensado. Tudo isso escrevo. Billhões pensam todo dia mil milhões de coisas, e o quê, dentre todas estas coisas, terão meus pensamentos de especiais?

Vejo-me defronte a uma propaganda que escandaliza da pior forma aquilo que mais quero. Esse espéctro faminto se infiltra por toda parte, como demônios, conhecem todos os nossos desejos e alimentam-se da nossa solidão. São insaciáveis por natureza, pois sua origem é o capital. 

Juntos a estes miseráveis anúncios está sempre associada alguma tecnologia ou ciência de ponta. Quando isso me é apresentado, sinto como se um raio partisse a minha mente, matando em mim toda a inspiração que alegremente obtive sem querer obter. Mas toda vez que quero escrever, preciso passar por este inferno. 

De frente para a tela me torno fosco igual a ela. Reflito amargamente por só escrever coisas úteis. Queria poder escrever coisas inúteis, coisas que tornassem insanas mais ilúcidas mentes apagadas pelo contidiano, coisas que inpirassem sonhos incestuosos e utopias anárquicas em regimes totalitários.

Como um amante da tecnologia, sempre idolatrei a ciência, a matemática e a engenharia, mas hoje desejo me libertar da ciência para qual dediquei a minha vida. Que respostas eu encontrei? Tudo o que acho são ainda mais perguntas do que respostas, mais crises do que crenças, mais incertezas do que convicções. Isso gera em mim um relativismos que arranca tudo do lugar, em nada consigo ser consistente porque em nada encontro o inabalável. 

Estou saturado de tanta metafísica, exausto de pensar essa vida logicamente. Boa parte da vida fui insensível, estúpido ao ponto de procurar sentido em músicas e poesias. Eu quero ouvir o Abujanra recitar Tabacaria no Jornal Nacional. Surtar falando com árvores que o melhor da vida é inexplicável.  Explicar como ser uma árvore e florescer em todos os planetas do sistema solar.

Em sonhos sempre me vejo adolescente ou criança. Ali nunca fiz filosofias. Se fiz, não percebi que fazia. Queria viver novamente aquele período e se apaixonar por personagens fictícios. Morrer de amor pelo banal.

Queria ficar doente e sentir o cuidado dos pais. Os problemas do mundo, os prazos, as burocracias, são todos pequenos diante de uma música ou de um cigarro. Fumar é ter a liberdade de não pensar em nada, somente sentir.

Penso que a Palestina e os isrraelenses vão todos se matar dando início a uma terceira guerra mundial, mas não sinto nada. Na verdade, torço para que a Europa toda se exploda. O velho mundo afunde e não caia um só pedaço no meu quintal. Os que nunca entraram numa guerra deveriam ser postos numa jaula para lutar até a morte contra crianças. 

Eu sou jovem ainda? Não. Mas tenho a força de um jovem, a burrice e sensibilidade de um adolescente. E quando chegar aos cinquenta anos, sentirei saudade dos 28, aí perceberei que hoje eu sou um covarde, para quando chegar aos 50, dizer que preciso de mais 20 anos para respeitar a vida.

Adulto de mente adolescente. Quero ser velho com mente de criança. Andar na beirada de um poço, se pendurar na beira de um penhasco. A salvação é pelo risco, sem o qual, a vida não vale a pena.

domingo, 9 de junho de 2024

Sobre a Dor - Ingrediente Mágico

Ingrediente Mágico

Todo poeta é um vagabundo,
Ele tem mesmo é que se foder,
Para expressar a dor do mundo,
Apaixone-se cedo com o sofrer.

Até sentimentos improfundos,
Devem em ti causar vaidosa dor,
Pois este é teu pano de fundo,
E dos poemas, o catalizador.

Os que sofrem pouco nesta vida,
Têm a inspiração desprovida,
Da salgada lágrima de choro.

Ignoram o ingrediente trágico,
Da poção, o acréscimo mágico,
Dos poetas, o supremo ouro.


A vaidosa dor.
 
Arte artificial.
"The fallen angel of the abyss, Lucifer, weeping with shattered stars in the background, featuring dramatic lighting in the art style of Alexandre Cabanel"