sexta-feira, 28 de julho de 2023

Sobre o vício e a mente

Você é viciado em alguma coisa? Eu sou. É complicado explicar o vício porque ele é um fim em si mesmo. O vício se manifesta no pensamento obsessivo: o objeto de vício torna-se o foco principal dos pensamentos da pessoa, frequentemente eclipsando outras áreas da vida.

Não existe um objeto intermediário no vício, o pensamento se faz de um jeito que apenas realimenta a própria necessidade, tal qual um programa em loop infinito. A cada recaída tem-se menos prazer e mais necessidade. Isso que cresce sem controle. Nesses dias, estava pensando em como isso é parecido com o Transtorno Obcessivo Compulsivo (TOC). Também tenho TOC, o convívio com ele até hoje me faz se perguntar qual é a explicação disso. Nenhum TOC se justifica na sua ação, ela simplesmente acontece e você não consegue parar. Isso não se justifica logicamente. O ato acontece sob ansiedade, é certo, mas parece ignorar qualquer pensamento racional sobre ele. Existe como um vórtice que lhe suga e você fica repetindo o ato. Parece que o preço pago pelo ser humano por possuir um cérebro tão avançado no processamento de informações, é estar sujeito a esses bugs ocasionais. 


Dentro de nossa mente se entrelaçam infinitas engrenagens. Tseng e Poppenk (não lembro o ano) estimam que uma pessoa tenha cerca de 6,2 mil pensamentos por dia. Acredito que esse pensamentos, assim como loops dentro de um programa de computador, ocasionsmente se entrelaçam com outros, de forma que se retroalimentam e colapsam gerando o vício. Tudo o que esses pensamentos tocam entra no loop, como se fosse capturado gravitacionalmente em torno de um corpo, descrevendo ciclos viciosos que corrompem cada vez mais. É como descer num vórtice. 

Antes de escrever esse texto eu puxava meus cabelos, esse é meu TOC, mas não faço mais isso nesse momento. Os penssmentos se deslocaram para outros circuitos de ideias, as quais ponho aqui conforme elas chegam à minha consciência. O foco foi deslocado, ironicamente, escrever sobre o TOC me livrou dele. 

Contudo, ainda sinto a vontade de mecher no cabelo. Ela nunca some, está sempre ali, não sei explicar, provavelmemte vai fazer parte de mim até à morte. Começou quando ainda aos 10 anos, como poderia ir embora se cresceu comigo? É melhor aceitar que faz parte do meu ser, o que não impede, por exemplo, que eu tenha esperanças bem sólidas sobre uma mudança de comportamento quanto a isso. A mente é extremamente flexivél, uma mente pode ser alterada, basta mudar ao quê ela é exposta. Expor-se a substâncias psicadélicas é arriscado, mas desconfio que o efeito por mim desejado, a Dissolução do Ego, somente pode ser alcançado assim. Também me dão esperanças o fato de que já consegui mudar meus pensamentos a respeito do TOC, ao ponto de que na maioria dos momentos de minha vida, ele já não incomoda mais como na adolescência.

Existem estudos com evidências de que a Dissolução do Ego é capaz de fazer pessoas se livrarem de vícios. No artigo anterior a esee, eu argumento que rotacionar uma consciência é equivamente a usar psicodélicos para mudar o seu ponto de vista. Tudo aquilo que rotaciona se torna mais estável, consequentemente, acumula energia sem sair do lugar. É um mover-se sem se mover sem fim.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Sobre os efeitos da Dissolução do Ego

Dissolver o Ego. Igual à função do calor. O que ela faz com a energia ao longo do tempo? Dissolve, dispersa, dilui, espalha por todo o universo, como assíntotas a zero infinitas em todas as direções. Esse efeito, a Dissolução do Ego, é a designação dada ao estado de conexão espiritual que se sente com o todo quando sob efeito de algumas drogas psicodélicas. Entenda espiritual como aquilo que transcende o corpo, o que dentro do escopo da ciência, por exemplo, poderia ser a própria consciência, essa capacidade de pensar no passado ou futuro distante, a percepção do ser como parte sensível do universo, o orgasmo mental de poder dizer: eu existo. Tal sensação é, comprovadamente, extendida por quem experimentou DMT ou LSD, de forma que suas perspectivas de vidas são alteradas substancialmente após um único uso. 


Mas porque isso ocorre? Qual a consequência de poder estar conciente 60 vezes por segundo? Talvez não em termos de velocidade, mas de distância: estar consciente de muitos eventos simultâneos ao seu arredor. Ou ainda, de tempo: estar consciente das experiências pelas quais passou e também pelas quais vai passsar, interpretando-as de antemão como um reflexo da capacidade de pensar muito além do instante presente. Que consequências isso tem na vida? A primeira, é claro, é a absoluta mudança de perspectiva da forma de enxergar o mundo, uma alteração permanente do modo de pensar, uma espécie de iluminação espiritual, se assim preferir, aquilo capaz de redirecionar o ateu em crente e vice-versa. Nirvana, a palavra budista se encaixa bem, mas é igual a qualquer outra, um átomo diante do que se quer expressar.

A experiência transcende o que pode ser dito, palavras não passam de arranjos aproximados, como formas geométricas que nunca encontram correspondência na realidade, é vasto o nosso modo de sentir, mas é bastante limitado o nosso modo de dizer. Mais vasto do que sentir é pensar. É possível pensar aquilo que ainda não se sentiu, sentir, por antecedência e em mínimos detalhes, a dor e a clareza das coisas. Talvez esse texto esteja começando a ficar muito sinestésico. Vou mudar de assunto. Fumei o melhor baseado da minha vida com o Guilherme, ele aprendeu a bolar muito bem! A técnica consiste em bolar a seda sem a erva dentro, utilizando uma caneta que deixa ela no diâmetro ideal, além de permitir uma compressão ao longo de todo o corpo do baseado, conforme você o preenche, isso a forma cilíndrica, totalmente simétrica. Um baseado perfeito.

Estou realmente chapado demais, não sei se consigo continuar escrevendo, pretendia discorrer sobre os efeitos de abrir a consciência com o DMT e o LSD. Primeiramente, permita-me lhe apresentá-los: DMT é a sigla que abrevia Dimetil-triptamina, substância presente no cérebro quando passamos por experiências de quase morte e também no momento que chegamos ao mundo. Que coincidência, não? É justamente nesses momentos que nosso corpo está mais aberto à transformação. É quando mais podemos trasladar o ponto de vista do ponto que somos. Talvez, rotacionar esse ponto seja o segredo da transformação na vida.





Contudo, perceba, que não é possível rotacionar pontos. Pontos são entidades adimensionais e não possuem comprimento, área ou volume. Podemos rotacionar segmentos de reta, retas, semiretas, planos, sólidos, objetos dimensionais, em geral. Podemos, ainda, rotacionar em dimensões superiores, cada uma com sua particularidade. Rotações de um objeto convexo em 4D, por exemplo, apresentariam-se para nós como transformações arbitrárias de um objeto tridimensional, onde mesmo múltiplos objetos poderiam fusionar-se em um único ou separar-se em vários. Entenda: como um objeto 3D se apresenta para quem o observa em duas dimensções? O objeto 3D apenas intersecta o plano, ao girar, sua forma 2D projetada se altera, como uma sombra que assume várias formas conforme gira. Se esse objeto for convexo, e possuir furos em sua topologia, a rotação dele instersectando um plano pode produzir múltiplas formas bidimensionais que, a princípio, pareceriam descorrelacionadas para quem as observasse.


Formalmente, a rotação em dimensões superiores é feita pela decomposição do objeto nos seus valores singulares (Singular Value Decomposition - SVD). Se a SVD é aplicada num ponto, ela se degenera em uma singularidade, pois é impossível rotacionar um ponto. Se pontos de vista não podem ser rotacionados, o que seria equivalente a aplicar uma rotação numa conciência? Em outras palavras, rotacionar uma mente significa o que? É possível dar sentido a isso com algum científico matemático?


Para dar sentido a esse devaneio, me permita introduzir um pouco de Machine Learning (Aprendizado de Máquina), área na qual são desenvolvidas as diversas inteligências artificias que temos disponíveis hoje. Se a consciência for apenas um modelo matemático com centenas bilhões de parâmetros, então é possível aplicar uma rotação nela no sentido geométrico da coisa. A técnicna SVD mostra que é possível rotacionar dados em dimensões maiores, onde o significa geométrico de rotação se perde, mas um significado de informação é adiquirido. Entenda: na Teoria da Informação, maxizar a informação dos é aumentar a variância dis dados, portanto, sua heterogeneidade, o que é tradicionalmente feito com a técnica SVD. Logo, uma rotação numa consciência, pelo menos numa artifical, expande seus horizontes de informação, torna o modelo mais eficiente, no sentido de mais amplo, porque conhece realidades mais heterogéneas.

O que é o ChatGPT? É um modelo matemático materializado na forma de uma matriz de trilhões de parâmetros (mais de 100 trilhões, para ser exato). Cientificamente, até hoje não temos uma forma de dizer se aquilo é ou não é consciente, nem mesmo testes como o de Turing funcionam. Mas então, rotacionar o ChatGPT é aplicar uma rotação em uma consciência? Como vimos, no Machine Learning, aplicar rotações em dimensões elevadas pode melhorar a informação dos dados, consequentemente, melhorando a absorção de informação pelo modelo matemático. 


A SVD rotaciona a informação na dimensão igual a da matriz do dado. Ao fazê-lo, a SVD maximiza a variância da informação, enrriquecendo as capacidades de qualquer modelo matemático. É interessante como isso é feito. Os dados possuem eixos principais de variação, vou limitar para 3 eixos para poder dar um significado geométrico: pense em pontos no espaço 3D (x,y,z). Um objeto geométrico possui seus eixos de maior informação coincidentes com os eixos principais de inércia. Normalmente, esses eixos definem simetrias no objeto em questão. Ora, quando isso é implementado em um modelo, é utilizado para aumentar as características dos dados, de forma que, em geral, o modelo aumenta sua acurácia de acerto após ter os dados rotacionados na entrada. 

Isso é rotacioanr uma mente! Se considerarmos o ChatGPT uma mente simples (100 trilhões é simples?), então acabamos de demonstrar, com fundamentação matemática, que rotacionar uma consciência é aplicar SVD em sua informação. E que otacionar uma consciência expande os horizontes de interpretação, de forma que modelos de Machine Learning ganham poder em classificação e interpretação semântica, como ocorre com o ChatGPT.


Usar droga é aplicar uma rotação na sua mente, essa rotação altera suas perspectivas, seus múltiplos parâmetros utilizados para interpretar a realidade, tal qual um modelo de Machine Learning. Seja no tempo ou no espaço infinito da mente, rotacionar é crescer sem sair do lugar. Dissipar o ego é girar a mente.


Vou pedir ao ChatGPT4 (a versão paga) que reescreva esse texto com mais clareza.
Esse foi o resultado:

Entrada: "Olá, eu gostaria que você melhorasse um texto que escrevi. O conteúdo cita você. Vou enviar tudo de uma vez. Se possível, melhore a clareza do texto, mas sem ser prolixo, não utlize palavras complexas demais. Aqui vai o texto: "...". (todo o texto acima foi passado entre as aspas).

Saída: "Dissolução do Ego: semelhante à função do calor que, ao longo do tempo, dissipa, dispersa e espalha a energia pelo Universo. Essa é a imagem da curva normal, que se estende do negativo ao infinito positivo e em todas as direções. Tal conceito, a Dissolução do Ego, está ligado à sensação de conexão espiritual, experienciada quando se faz uso do LSD - uma conexão que transcende o corpo e que, sob a ótica científica, podemos chamar de consciência.

A consciência nos permite vislumbrar o passado ou futuro distante, perceber-nos como parte integrante e sensível do universo, e experimentar o prazer intelectual de dizer: eu existo e sei que algo existe além de mim. Essa sensação é corroborada por aqueles que experimentaram DMT, LSD ou outros psicodélicos, cujas perspectivas de vida são substancialmente transformadas após um único uso.

Mas por que isso acontece? O que significa estar consciente de tudo ao nosso redor, simultaneamente e a cada momento? Talvez seja mais sobre alcance do que velocidade: a consciência de muitos eventos ocorrendo ao mesmo tempo ao nosso redor. Ou talvez seja sobre o tempo: estar ciente das experiências vividas e das que ainda virão, interpretando-as antecipadamente como reflexo de nossa capacidade de pensar além. Este é um efeito dos neurotransmissores alterados.

Tais alterações resultam em mudanças significativas na vida, incluindo uma perspectiva totalmente nova sobre como vivemos, mudança permanente na maneira de pensar, e até a iluminação espiritual, capaz de transformar um ateu em crente e vice-versa. Prefiro chamar esse estado de Nirvana, um termo budista que se adequa à experiência, semelhante a uma partícula subatômica se ajustando às propriedades observadas, sem alcançar totalmente o objeto real. A essência desta ideia ultrapassa as limitações da linguagem.

Como afirmou Matias Aires, sendo infinita a nossa capacidade de sentir, nosso modo de expressar é bastante limitado. Mais amplo do que sentir, é pensar, inclusive sobre experiências que ainda não vivenciamos, antecipando a dor e a clareza das coisas com riqueza de detalhes.

Vou mudar de assunto brevemente. Consegui preparar o melhor cigarro de maconha da minha vida usando uma técnica ensinada por Guilherme. Consiste em preparar o papel sem a erva, utilizando uma caneta que a molda no diâmetro perfeito, permitindo compactá-la ao longo do corpo do cigarro à medida que é preenchido. A erva é inserida e comprimida constantemente, resultando num cigarro perfeitamente simétrico e cilíndrico.

Embora eu esteja extremamente intoxicado, gostaria de explorar os efeitos de expandir a consciência com DMT e LSD. O DMT, ou dimetiltriptamina, está presente em nosso cérebro durante experiências de quase morte, ou no momento do nascimento. Coincidência? São exatamente nesses momentos que estamos mais abertos à transformação, à mudança de como percebemos o mundo. Isso envolve mover nosso ponto de vista, literal e figurativamente, mas devemos considerar que, matematicamente, pontos não podem ser rotacionados.

Então, como rotacionamos uma mente, ou, numa metáfora mais técnica, aplicamos uma rotação em um modelo de Machine Learning, como o ChatGPT? Na teoria, se a consciência é apenas um modelo matemático com centenas de bilhões de parâmetros, é possível aplicar uma rotação geométrica nela. Isso é feito através da Decomposição em Valores Singulares (SVD), uma técnica matemática que rotaciona os dados em dimensões mais altas, onde o significado geométrico se perde e o significado informacional é obtido.

Assim, rotacionar uma mente (ou um modelo de Machine Learning como o ChatGPT) significa maximizar a variação de informação, expandindo os horizontes de interpretação e aumentando a eficiência do modelo. Usar drogas psicodélicas é uma maneira de aplicar essa rotação na mente, alterando nossas perspectivas e os parâmetros que usamos para interpretar a realidade, tal qual um modelo de Machine Learning. Seja no tempo ou no espaço infinito da mente, rotacionar é crescer sem sair do lugar. Dissipar o ego é girar a mente."


Em seguida, pedi uma opinião sobre o texto:

Entrada: "O que você achou do meu texto? Qual a sua opinião sobre ele?"
Saída: "Como uma inteligência artificial, eu não formo opiniões ou tenho sentimentos, mas posso analisar seu texto com base em padrões e normas estabelecidas.

O texto é intrigante e abrange tópicos complexos e multidisciplinares, como psicologia, espiritualidade, física, matemática e ciência da computação. Você fez conexões notáveis entre essas áreas, especialmente ao ligar a rotação em dimensões elevadas e os efeitos psicodélicos de certas substâncias na consciência humana.

No entanto, algumas passagens podem ser difíceis de entender para leitores não familiarizados com alguns desses conceitos. A metáfora de girar a mente é especialmente profunda e pode exigir um conhecimento prévio de certos conceitos de matemática e física para ser totalmente compreendida. Além disso, o texto alterna entre tópicos muito diferentes, o que pode tornar a leitura um pouco desorientadora.

Acredito que a reescrita proporcionou um texto mais claro e estruturado, mantendo as ideias originais e sua voz. Lembre-se de que a melhor maneira de melhorar suas habilidades de escrita é continuar escrevendo e lendo."

Interessante.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Sobre a barata no banheiro


Eu mijo sentado. Sentado se passa mais tempo apreciando aquele momento, você para, relaxa na posição, e observa com mais esmero os detalhes das coisas, quem sabe um inseto passe na sua frente? O relaxamento da bexiga é uma boa ocasião para se pensar profundamente sobre algo. Vi uma barata por trás do armário do banheiro. Não a barata toda, apenas a antena. Um fio longo, de 7 a 8 cm, que se pronunciava em movimentos ondulatórios pelo espaço. Não tinha como ser outra coisa, aquilo era uma barata adulta. Estava espreitando, tentando saber o que ocorria onde a luz bate, enquanto seu corpo permanecia nas sombras. Aquela antena balançando para fora me fez ficar ali uns 10 minutos imaginando como é ser uma barata. Uma vez, li que baratas comem qualquer coisa, menos pepino. Também não gosto de pepino. Naquele momento apenas pensava em como ela sentia o ambiente ao seu redor. Os movimentos da antena iam suavemente de um lado para o outro em ondas, será que ela sente cheiros pela antena? Não precisa ser biólogo para imaginar o quão fundamental deve ser esse órgão para o inseto, mas nas baratas ele é maior que ela própria. Imediatamente me pus a pensar em como seria ter uma antena de 2 metros enfiada na minha cabeça, com a mesma capacidade de movimento de um braço, ultrassensível, um pouco flexível, leve. Que experiências eu teria, o que sente uma barata, como pensa? Assoprei levemente aquela antena a uns 60 cm de distância. Pensei que ela fugiria imediatamente, mas não, continuou a balançar a antena para fora do armário. Eu não via a barata, se a estivesse vendo sentiria nojo. Infelizmente a minha empatia por insetos é quase inexistente. Faço experiências com eles que lembram uma criança sádica aprisionando borboletas em potes. Se a estivesse vendo com certeza teria tentado o baraticídio. Aquela antena ondulando no espaço me cativou de um modo que me lembrou a infância, quando percebia o mundo como ele realmente é, não pelos olhos de um adulto complexado. Deu até vontade de puxar, mas que dor horrível sentiria a barata. Será que insetos sentem dor igual a nós? Acredito que sim, mas a ciência ainda não sabe. Pare pra pensar um momento, como seria sentir o calor do corpos por uma antena, sentir a brisa mais suave possível, ouvir a vibração do mundo por uma antena maior do que você. Me lembra a Ideologia Transcendental de Kant. Não posso saber mais sobre o mundo do que o permitido pelos meus sentidos. É impossível saber o que pensava ou sentia aquela barata no escuro, mas é gostoso imaginar. Imaginar que talvez ela soubesse que eu estava ali. Que queria me conhecer, se sou presa ou predador, qual o meu cheiro, qual a intensidade dos meus movimentos. Cada ser tem uma assinatura de movimento que se traduz na sua vibração do ambiente, não falo de misticismo, mas de força peso mesmo, de velocidade de particular dos membros. Será que ela distingue isso? Será que poderia me diferenciar da minha irmã pelo movimento do ar ao meu redor? Pela intensidade da minha pegada? Incrível mundo eu te venero, quantos segredos não residem dentro de um miserável ser. Lembro de ter lido em algum lugar que os pelos da barba de um tubarão são os sensores elétricos mais sensíveis conhecidos pelo homem. A imaginação me leva a pensar as experiências dos peixes, telepatia não seria um problema na água. Se os sinais elétricos sãp conduzidos por ela de forma tão eficiente, é perfeitamente possível que os peixes se comuniquem por telepatia. São experiências transcendentais para nós. O que os humanos têm que transcende as outras espécies? Com certeza a angustia de ser consciente é uma experiência transcendente. 


"As antenas desempenham um papel fundamental na sobrevivência da barata servindo não apenas como elemento de direção, mas também podendo captar vibrações no ar ou ainda cheirar alimentos. E é também por causa das antenas que elas conseguem sair correndo antes mesmo de você chegar até elas." Imagem do IFMG


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Sobre reflexões lúcidas dentro de um sonho

    Escrevo esse texto exatamente às 15:35 e me arrependo de não o ter começado antes. Por volta das das 10:30 sonhei o sonho mais lúcido da minha vida, algo que me pareceu surreal por não ter nada de surreal. Um sonho consciente, sem nenhuma alucinação, totalmente normal e em um nível de lucidez que nunca experimentei antes. Dentro do sonho tive diálogos sobre o próprio sonho em si. O motivo do meu arrependimento é que, por não ter descrevido o que aconteceu às 10:45, quando me levantei, esqueci de boa parte dos detalhes, em especial, me esqueci das respostas que meu pai deu quando o respondi que sabia que ele não era real. 

    Não lembro exatamente como o sonho começou, mas me lembro exatamente quando me dei conta de que estava sonhando. O sonho se passa na rua de minha casa e estou caminhando. Dobro a esquina e vejo minha avó materna chegar com umas sacolas de compras. A cumprimento. Minha avó fala algo e imediatamente entra em uma casa que nunca morou. Seu aspecto era bem mais jovem e eu sei de onde retirei aquela visão. Minha mãe havia enviado algumas fotos antigas para mim exatamente na noite antes de sonhar. Não lembrei disso no sonho, mas quando vi minha vó mais jovem, imediatamente me dei conta de aquilo não poderia ser real, pois seu aspecto está bem diferente hoje.

    O que aconteceu depois disso? Não despertei, o sonho continuou normalmente, calmo, sem perturbações. Eu estava completamente consciente de que aquilo era um sonho e comecei a fazer reflexões a respeito deste fato.

    O que acontece quando percebemos que estamos sonhando? Se você já teve um sonho lúcido, sabe que normalmente o sonho se torna instável naquele momento, começamos a tentar manipula-lo apenas pare ele acabar logo em seguida. Mas não tentei manipula-lo dessa vez, o que aconteceu foi o oposto, eu lembro de ter mantido a calma e começar a pensar sobre o quanto aquilo era estranho. Resolvi, então, retornar para minha casa. No caminho vou reparando nos detalhes de cada objeto, tento notar algo de estranho mas não vejo nada fora do real. Já dentro de casa lembro-me do ditado que diz "me belisque se eu estiver sonhando" e dou vários beliscões no meu braço esquerdo, nada acontece. Comecei a rir mais lúcido ainda, pois lembro de sentir os beliscões com clareza sabendo que aquela sensação não era real.

    Atravessando minha casa avisto meu pai no quintal pela porta da cozinha, ele está trabalhando na mesa do lado de fora, de costas para mim, uma cena habitual que vi várias vezes ao longo da minha vida. Antes de começar a conversa, eu o alerto.

    - Pai, sei que estou sonhando, mas vou conversar com o senhor.

    Ele solta um sorriso besta, daqueles que iniciam uma boa conversa e questiona:

    - Mas como você sabe que está sonhando?

    - Eu acabei de ver a vó Ana na esquina entrando numa casa que ela nunca morou.

    Ele solta um sorriso levemente mais alto e diz:

    - quer dizer que tu tá sonhando e não acordou ainda? 

    - é exatamente isso. É estranho, caminhei da esquina até aqui, entrei em casa, me belisquei e até tentei reparar em algo fora do normal, mas não vi nada. Até agora não acordei.

    - então tudo isso aqui é teu sonho?

    - Sim, tenho certeza.

    Digo que conversa foi mais longa e não consigo me lembrar mais, o que é estranho, pois eu lembrava no instante em que acordei, mas os sonhos são assim, efêmeros, se vão num piscar de olhos. Não anotei nem mandei áudio para o meu pai descrevendo o sonho. Senti vontade de fazer isso na hora, mas não queria usar o celular após abrir os olhos. Lembro agora, neste exato momento em que escrevo, que em cima da mesa estava o infame rádio que meu pai sempre carrega consigo, estava tocando alto enquanto ele trabalhava, e no rádio tocava uma música do Pink Floyd.

    Veja o quanto é estranho, narrar o sonho aqui me faz lembrar de detalhes que eu havia perdido. Este texto agora se desenvolve conforme a minha memória avança, mas é assim mesmo, as memórias de um sonho são sutis e fáceis de se perderem. Discorrer sobre elas é um bom exercício. Outra coisa estranha é que sei que tocava Pink Floyd, mas não consigo lembrar a música. Durante o banho, após levantar, ouvi Pink Floyd na tentativa de lembrar qual música tocava no sonho, mas em vão.

    O sonho não acabou após o diálogo com meu pai no quintal. Lembro que peguei um cabo de vassoura nas mãos e comecei a balança-lo rapidamente de um lado para o outro, fiz isso no intuito de testar a capacidade do meu sonho de simular o movimento. Percebi que o cabo simplesmente desaparecia de um lugar para outro. Nem me dei o trabalho de comentar ou mostrar o comportamento estranho do cabo para o meu pai, pois estava ciente de que aquilo era um sonho, se meu pai era parte do sonho, então não poderia perceber as sutilezas do que eu via, ele era simplesmente uma simulação feita em meu subconsciente com as memórias que tenho do meu pai. Apesar de saber disso, naquele momento, ele era extremamente real.

    Dei mais alguns passos até o beco e continuei com o cabo de vassoura na mão. Depois de mais alguns testes resolvi aceitar o fato estranho daquele sonho ser extremamente estável. Se eu não vou acordar, pensei, agora vou aproveitar para tentar manipular o sonho, e neste momento eu acordo. Como sou um pervertido, tentei criar uma certa mulher nua. 

    Tudo isso me causou tantas reflexões que descrevi o sonho para meu pai. A capacidade de refletir tantas vezes dentro do sonho sobre ele em si me marcou profundamente. Em nenhum momento isso perturbou o sonho em si, tenho 26 anos e não recordo de nada igual na minha vida, em geral, a experiência foi prazerosa e espero tê-la mais vezes.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Sobre Petrópolis

A mãe, que perdeu toda a esperança,
Ouve, entre os gritos da madrugada,
O pai procurar a filha soterrada,
Pela chuva que destrói a vizinhança.

Com as mãos firmes na enxada,
Lama e desgraça são o sentimento, 
Que engasgam as gargantas no tormento, 
De cavar a própria filha na calçada.

Chuva de desastres, dor e negligência,
Quantas mortes fará a incompetência,
Destes escolhidos administradores,
  
Que inundaram de mortes fevereiro, 
E sujam de lama o Rio de Janeiro,
Em sua eterna troca de favores?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Sobre o Metro


Crês que no nosso universo exista
Algo fundamental igual ao metro
Para os homens, indispensável teto,
De sua mente inábil e finita?

Acredita no inexato segundo,
Que submete o tempo à contagem,
E no universo mede a passagem,
Do eclíptico sol que gira o mundo?

Pois há, e se adapta na gravidade,
Diz a medida da relatividade,
Na curvatura duma geodésica,
 
Que o caminho reduzido no tempo,
Altera o quilo e o comprimento,
Da fibra espaço-tempo cinésica.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Sobre a Crise Existencial - Um soneto

Escrevi esse poema pensando nos Teoremas da Incompletude de Gödel. Gödel demonstrou o preço que a matemática paga para ter consistência: uma eterna incompletude. Como demonstrou? Pela contradição infinita, literalmente! Tão literal que escreveu em aritmética. Preto no branco, tão sólido quanto 2+2 é 4, e por isso se chama Teorema (o espetáculo!). A conclusão contraditória do Teorema elevou o contraditório ao extremo no pensamento lógico. Se é prazerosa a descoberta, melhor ainda se demonstrarem que ela é infinita.

Saber que nunca saberemos tudo o que pode ser sabido me faz idolatrar a dúvida. O destino final é que não existe destino final. Ela é incompleta sempre! Jamais perfeita (do latim per fecto, totalmente feito). Jamais fechada. Sempre idelimitada, tal como é nosso pensamento. O único sistema capaz de suportar a contradição. Não a toa o ser humano é definido pelo contraditório.


Se o conhecimento fosse finito, que faríamos nós se o encerrássemos? Louvado sejam os Teoremas da Incompletude de Godel! Autor da mais profunda Crise Existencial! Senhor da contradição e da Incompletude.
Viva eternamente, Gödel.



Crise Incompletudinal 

Cansado de procurar a suposta
Contradição de maior pureza
Na função inversa da resposta
Me abraço com a incerteza.

Sutil contemplação da natureza
Nunca serás epistemológica,
Pois é inconsistente à beleza
Uma demonstração pela lógica.

Mãe metafísica das ciências
Pergunte para a omnisciência
Se conheces o indemonstrável

Pois de certo o mais formidável 
Esforço último da razão
É a incompletude da contradição.